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Câncer de pâncreas: por que é tão agressivo e difícil de tratar?

A atriz Titina Medeiros morreu aos 48 anos, cerca de um ano após o diagnóstico de câncer de pâncreas. A notícia reacende o alerta para uma das doenças oncológicas mais temidas: silenciosa no início, de progressão rápida e com opções limitadas de tratamento quando descoberta tardiamente. No Brasil, mais de 10 mil novos casos são diagnosticados por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Entender por que esse tumor é tão agressivo e quais sinais merecem atenção pode fazer diferença no prognóstico.

O que torna o câncer de pâncreas tão perigoso?

O pâncreas é um órgão localizado profundamente no abdômen, responsável por produzir insulina e enzimas digestivas. Quando um tumor maligno se desenvolve ali, ele costuma crescer sem causar sintomas nas fases iniciais. “O grande problema é que ele é silencioso. Quando aparecem os sintomas, muitas vezes o tumor já está em estágio avançado e com metástases”, explica o cirurgião gastrointestinal Lucas Nacif. Apenas 10% a 15% dos casos são diagnosticados precocemente.

Além do diagnóstico tardio, o tipo mais comum de tumor pancreático — o adenocarcinoma ductal pancreático — tem comportamento invasivo. Ele se espalha rapidamente para órgãos vizinhos como fígado e peritônio, e também pode se disseminar pela via linfática ou sanguínea. Mesmo quando identificado cedo, muitas vezes é necessário combinar cirurgia com quimioterapia para aumentar as chances de controle.

Quais são os fatores de risco?

Os fatores de risco dividem-se em hereditários e não hereditários. Cerca de 10% a 15% dos casos têm origem genética, associados a síndromes como câncer de mama e ovário hereditário (genes BRCA1, BRCA2 e PALB2), Síndrome de Peutz-Jeghers e pancreatite hereditária. Já os fatores modificáveis incluem tabagismo, excesso de gordura corporal (sobrepeso e obesidade), diabetes mellitus e pancreatite crônica não hereditária. Esses últimos são importantes porque podem ser controlados com mudanças no estilo de vida.

O diabetes merece destaque: além de ser um fator de risco, seu aparecimento recente em pessoas sem histórico pode ser um sinal de alerta para um tumor pancreático subjacente.

Sintomas que não devem ser ignorados

Os principais sinais incluem icterícia (pele e olhos amarelados), urina escura (cor de chá-preto), cansaço, perda de apetite e de peso, e dor na parte superior do abdômen ou nas costas. O problema é que esses sintomas são inespecíficos e podem ser confundidos com outras doenças, o que atrasa o diagnóstico. O oncologista Mauro Donadio, da Oncoclínicas, reforça que “sinais como perda de peso inexplicada, dor abdominal persistente e icterícia não devem ser ignorados”.

Exames de imagem como ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética, além da dosagem do marcador tumoral CA 19-9 no sangue, ajudam na investigação. O diagnóstico definitivo é feito por biópsia.

Tratamento e chances de cura

A cirurgia de retirada do tumor é o único método com potencial curativo, mas é possível em uma minoria dos casos, justamente porque a maioria dos diagnósticos ocorre em fases avançadas. Quando o tumor é detectado em estágio inicial, as chances de sucesso podem chegar a até 90%. Para os casos em que a cirurgia não é viável, radioterapia e quimioterapia são as opções disponíveis.

Infelizmente, ainda não existem exames de rastreamento eficazes para a população em geral, como há para câncer de mama ou colo do útero. A biópsia líquida, que detecta fragmentos genéticos do tumor no sangue, é uma técnica promissora, mas ainda não está amplamente disponível na prática clínica. Para pacientes com histórico familiar ou síndromes genéticas, exames de imagem preventivos podem ser indicados.

O que esperar para o futuro

O esforço da pesquisa oncológica se concentra em melhorar o diagnóstico precoce e desenvolver terapias mais eficazes. Enquanto isso, o conhecimento sobre os fatores de risco e a atenção a sintomas persistentes continuam sendo as melhores ferramentas para aumentar as chances de detecção em fase inicial. A conscientização pública, como a gerada pelo caso de Titina Medeiros, pode ajudar a salvar vidas ao incentivar a busca por avaliação médica diante de sinais suspeitos.