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Câncer de mama pode avançar no Brasil sem diagnóstico oportuno

Mortes por câncer de mama em países de baixa e média renda podem aumentar 40% até 2050 se as tendências atuais forem mantidas. No Brasil, projeções citadas em documento enviado ao Congresso apontam que a mortalidade geral pode subir de 17,7 óbitos por 100 mil mulheres em 2025 para 22,1 em 2050. O cenário não é inevitável: rastreamento adequado, diagnóstico precoce, tratamento rápido e redução das desigualdades podem alterar essa trajetória.

Por que a mortalidade pode crescer

O aumento projetado está relacionado ao envelhecimento da população e à transição epidemiológica, processo em que as doenças crônicas e o câncer passam a representar parcela maior dos problemas de saúde. Quanto maior o número de mulheres vivendo até idades mais avançadas, maior também a população exposta ao risco de desenvolver tumores.

As projeções, porém, não dependem apenas da demografia. O acesso desigual à mamografia, à biópsia, aos medicamentos, à cirurgia e à radioterapia pode fazer com que a doença seja identificada em fases diferentes. Mulheres que aguardam mais tempo para confirmar o diagnóstico ou iniciar o tratamento podem ter menos oportunidades de intervenção precoce.

O impacto do atraso no tratamento

Entre 2023 e 2025, mais da metade das mulheres diagnosticadas com câncer de mama esperou mais de dois meses para iniciar o tratamento, conforme o levantamento mencionado no material. O intervalo pode envolver marcação de consultas, realização de exames, confirmação do tipo de tumor e encaminhamento para um serviço especializado.

O câncer de mama não é uma doença única. Existem diferentes subtipos, com comportamentos e respostas terapêuticas distintos. Por isso, o tempo gasto entre a suspeita e a definição do tratamento pode ser decisivo para organizar a conduta adequada e evitar a progressão enquanto a paciente aguarda atendimento.

Como funcionam rastreamento e investigação

A mamografia pode identificar alterações suspeitas antes que elas sejam percebidas pela própria mulher. O exame, entretanto, não confirma sozinho a presença de câncer. Resultados alterados precisam de avaliação complementar e, em alguns casos, de coleta de material para análise.

O Ministério da Saúde informou a ampliação da faixa etária atendida no SUS, de 40 a 74 anos, enquanto uma das metas anunciadas é aumentar o acompanhamento de mulheres de 50 a 69 anos com mamografia avaliada nos últimos 24 meses. A indicação individual deve considerar idade, histórico familiar, sintomas e orientação da equipe de saúde. Um caroço novo, retração da pele, alteração no mamilo ou secreção sanguinolenta merece avaliação, mesmo fora da faixa de rastreamento.

Medidas anunciadas para ampliar o cuidado

O governo estabeleceu como meta reduzir em 10% a mortalidade prematura por câncer de mama até 2030 e aumentar a cobertura do acompanhamento. Cerca de 4 milhões de mamografias foram realizadas pelo SUS no ano anterior, e 93 Carretas de Saúde passaram a levar exames para diferentes regiões por meio do Programa Agora Tem Especialistas.

Também foi anunciado o acesso a testes genéticos para identificar mutações hereditárias associadas ao câncer de mama, incluindo alterações nos genes BRCA1 e BRCA2. Esses exames não são necessários para todas as mulheres. Eles podem ser considerados em situações específicas, como histórico familiar sugestivo, e seus resultados precisam ser interpretados com aconselhamento adequado.

Novas terapias dependem do subtipo do tumor

O tratamento do câncer de mama pode envolver cirurgia, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia e terapias direcionadas. A escolha depende do tamanho e da localização do tumor, da presença ou não de disseminação e de marcadores identificados na análise das células.

Entre as medidas destacadas está a incorporação do trastuzumabe entansina para casos de câncer de mama HER2 positivo, subtipo que apresenta determinada proteína em excesso nas células tumorais. A terapia direcionada não é indicada para todos os casos, mas pode ampliar as opções para pacientes que se enquadram nos critérios clínicos do tratamento.

Radioterapia e acesso regional

Desde 2023, foram adquiridos 155 novos aceleradores lineares para ampliar a oferta de radioterapia no SUS. Os equipamentos permitiram a abertura de centros em 12 estados, dentro de um plano com previsão de conclusão até o fim de 2026.

A expansão é importante porque a existência do equipamento não basta: é preciso contar com profissionais, manutenção, organização da fila e integração entre diagnóstico e tratamento. A assistência oncológica depende da articulação entre União, estados e municípios para que a paciente consiga percorrer todas as etapas sem interrupções.

O que precisa acontecer até 2050

A projeção de aumento da mortalidade funciona como um alerta, não como destino inevitável. Mudanças na cobertura do rastreamento, na rapidez do diagnóstico, no acesso às terapias e na qualidade do acompanhamento podem modificar o cenário estimado.

Para as mulheres, a orientação prática é manter o acompanhamento de saúde, conhecer alterações nas mamas e procurar atendimento diante de sinais persistentes. Para o sistema público, o desafio é transformar exames e tecnologias disponíveis em cuidado oportuno, especialmente nas regiões mais vulneráveis. A redução das mortes dependerá menos de uma medida isolada e mais da continuidade de toda a linha de cuidado.