Um estudo realizado nos Estados Unidos levantou uma questão incômoda para a área da saúde: profissionais que trabalham com saúde mental podem ter visões mais duras sobre pessoas com dependência de opioides do que a população em geral. O estigma, que já é uma barreira para quem precisa de ajuda, torna-se ainda mais prejudicial quando está presente em quem deveria acolher e cuidar. O estudo reforça que o preconceito é um problema estrutural, que não poupa nem aqueles que dedicam a carreira ao cuidado do outro.
O que a pesquisa encontrou
Os pesquisadores entrevistaram 1.600 pessoas em 13 estados americanos e pediram que avaliassem afirmações como “pessoas com problemas de uso de opioides são culpadas por sua situação”, “quem usa metadona está trocando um vício por outro” e “tendo a julgar negativamente pessoas com problemas de opioides”.
Profissionais de saúde mental e socorristas concordaram mais com essas afirmações do que os demais participantes. Em vez de apresentarem uma visão mais humana e informada, eles reproduziram, em alguns casos, o mesmo preconceito encontrado na sociedade em geral.
Por que o estigma é tão grave
O estigma funciona como uma barreira mental para buscar ajuda. Se a pessoa acredita que será julgada, sente vergonha e adia o pedido de apoio. Muitas vezes, quando finalmente chega a um serviço de saúde, o medo de condenação permanece e pode levar ao abandono do tratamento.
No contexto dos opioides, os números são preocupantes: só em 2024, foram registradas mais de 82 mil mortes por overdose nos Estados Unidos. Milhões de americanos vivem com transtorno por uso dessas substâncias, mas muitos evitam procurar ajuda justamente por causa do julgamento que antecipam.
O estigma também influencia políticas públicas. Quando a sociedade enxerga o dependente químico como uma pessoa fraca ou perigosa, há menor pressão por investimento em serviços de tratamento e maior aceitação de abordagens punitivas. Esse ciclo mantém o problema escondido e dificulta a prevenção.
Um problema dentro do cuidado
Os pesquisadores destacam que a maioria dos profissionais entra na área de saúde com o objetivo genuíno de ajudar. No entanto, a formação nem sempre ensina a enxergar a dependência química como uma doença crônica, semelhante a diabetes ou hipertensão, em vez de uma falha de caráter.
Essas crenças podem afetar a conduta clínica. Um profissional que culpa o paciente pelo próprio sofrimento pode ser menos empático, adotar uma abordagem mais rígida ou até hesitar na prescrição de medicamentos eficazes para reduzir o uso de opioides, como metadona e buprenorfina. O tratamento que deveria acolher acaba afastando quem mais precisa dele.
Pesquisas já mostraram que o cuidado centrado na pessoa, com linguagem sem julgamento, melhora a adesão e os desfechos clínicos. Por isso, o estigma não é um detalhe de atendimento — é uma questão de eficácia terapêutica.
Como reduzir o estigma
A solução apontada pela pesquisa é o investimento em treinamento. Programas como o Mental Health First Aid ensinam profissionais e voluntários a ouvir sem julgamento, reconhecer sinais de dependência e ajudar a pessoa a encontrar o tratamento mais adequado.
Os autores ressaltam que há boa vontade no cuidado, mas faltam ferramentas. Capacitações que expliquem os fatores biológicos, sociais e psicológicos do vício podem diminuir o preconceito e melhorar a relação terapêutica.
Também é importante que as instituições de saúde criem espaços de reflexão sobre essas atitudes, para que os profissionais possam reconhecer e rever seus próprios vieses.
O que vem a seguir
Apesar de os dados serem americanos, a discussão interessa diretamente ao Brasil, onde o consumo de opioides e de outras substâncias cresce, e o estigma em torno das dependências ainda é forte.
Encarar o preconceito dentro dos próprios serviços de saúde é um passo essencial para que mais pessoas busquem ajuda sem medo. O cuidado acolhedor não é apenas uma questão de sensibilidade — é uma estratégia de saúde pública que salva vidas.
Estudo: Community Mental Health Journal
