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Radiofármaco combinado retarda câncer de próstata metastático

Um ensaio clínico internacional de fase 3 demonstrou que o uso precoce de um radiofármaco chamado 177Lu-PSMA-617, combinado à terapia hormonal padrão, reduz em 28% o risco de progressão ou morte em pacientes com câncer de próstata metastático. Os resultados, publicados em um periódico médico de alto impacto, levaram o órgão regulador dos Estados Unidos, o FDA, a aprovar essa abordagem para pacientes recém-diagnosticados com tumores positivos para a proteína PSMA. Para muitos pacientes, significa que uma terapia antes reservada a casos avançados e resistentes pode agora ser oferecida logo no início do tratamento.

O que é o câncer de próstata metastático

O câncer de próstata metastático é aquele que já se espalhou para outras partes do corpo, como ossos, gânglios ou órgãos distantes. Nessa fase, o tratamento tradicionalmente se apoia na privação de andrógenos (ADT), que reduz a produção de testosterona, combinada a medicamentos que bloqueiam a via do receptor de andrógeno (ARPI).

O problema é que muitos pacientes desenvolvem resistência a essa dupla ao longo do tempo, e a doença volta a progredir. Aproximadamente 9 em cada 10 pacientes com câncer de próstata metastático têm tumores que expressam a proteína PSMA na superfície das células, o que os torna elegíveis para a nova estratégia.

Como o novo tratamento funciona

O 177Lu-PSMA-617 é um medicamento da classe das terapias radionuclídicas alvo. Ele age como um sistema de entrega: uma molécula reconhece a proteína PSMA presente nas células tumorais e se liga a ela; acoplado a essa molécula, há um isótopo radioativo que libera radiação diretamente no tumor, destruindo as células cancerosas com relativa preservação dos tecidos normais.

A aplicação é feita por via intravenosa, geralmente a cada seis semanas, em ambiente hospitalar especializado, por médicos da área de medicina nuclear ou radioterapia. Ao ser adicionado ao tratamento hormonal, o radiofármaco ataca o câncer por uma via complementar, ampliando o controle da doença.

O que mostrou o estudo

O ensaio clínico acompanhou mais de 1.100 pacientes em 169 centros de 20 países. Metade recebeu a combinação tripla — radiofármaco mais ADT mais ARPI — e a outra metade recebeu apenas o tratamento hormonal padrão. Pacientes do grupo de controle que apresentaram progressão puderam migrar para o grupo da terapia tripla.

Além da redução de 28% no risco de progressão ou morte, o tratamento adiou o surgimento de resistência, a necessidade de trocar de terapia e os sintomas relacionados à disseminação do tumor para os ossos. Como esperado, a combinação gerou mais efeitos colaterais do que a dupla tradicional, sendo os mais comuns boca seca, relatada por 46% dos pacientes, e fadiga.

Os eventos adversos graves também foram mais frequentes no grupo que recebeu o radiofármaco, um resultado considerado previsível em esquemas de tratamento com três drogas. Apesar disso, a maioria dos efeitos foi controlável e não impediu que os pacientes seguissem o protocolo.

O que muda na prática

Antes dessa aprovação, o 177Lu-PSMA-617 era reservado para pacientes que já não respondiam mais às terapias iniciais. Agora, ele passa a ser uma opção para pacientes diagnosticados com doença metastática, desde que os exames de imagem confirmem que o tumor é PSMA-positivo.

Isso não significa que todos os pacientes devam usar o medicamento. A terapia exige infraestrutura de medicina nuclear, equipes treinadas e cuidados com a radiação para evitar exposição de familiares e cuidadores. Pacientes também precisam de orientação sobre precauções após a infusão, como evitar contato próximo com crianças e gestantes por alguns dias.

Em regiões com menos centros especializados, o acesso pode ser um desafio, e a decisão deve considerar os biomarcadores do tumor e as preferências do paciente.

O que vem a seguir

Os pesquisadores seguem analisando os dados para saber se o benefício observado na progressão também se traduz em ganho de sobrevida global. Os resultados disponíveis até agora apontam nessa direção, mas ainda não são conclusivos.

Também estão em desenvolvimento novos agentes de imagem capazes de identificar metástases que antes passavam despercebidas, o que deve ajudar a selecionar melhor os candidatos a cada terapia. O avanço reforça a tendência de a oncologia caminhar para combinações cada vez mais personalizadas, guiadas pelas características moleculares do tumor de cada paciente. A expectativa é que, com mais estudos, a terapia se torne acessível também em países com sistemas públicos de saúde, como o Brasil.

Estudo: PSMAddition (The Lancet)