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Reposição hormonal na menopausa pode cortar risco de Alzheimer em 35%

Pesquisadores encontraram uma associação expressiva entre o uso da terapia de reposição hormonal (TRH) e a redução de 35% no risco de Alzheimer em mulheres. O tratamento, amplamente utilizado para aliviar sintomas da menopausa, passa a ser visto também como uma possível estratégia de proteção cerebral — embora os cientistas alertem que o assunto ainda exige cautela.

O que o estudo sugere

O número — 35% menos risco — chama atenção e se soma a um conjunto crescente de evidências sobre os efeitos do estrogênio no cérebro. Ainda assim, estudos como esse são observacionais, ou seja, mostram uma correlação entre o uso do hormônio e a menor incidência de Alzheimer, mas não provam que um causa o outro. Pode haver diferenças entre as mulheres que escolhem fazer a reposição e as que não fazem, como maior cuidado com a saúde, por exemplo.

Outro ponto é que a pesquisa avaliou o risco de Alzheimer, não a progressão da doença. Isso significa que a TRH pode estar associada à prevenção, mas não há indicação clara de que sirva como tratamento para quem já recebeu o diagnóstico.

Por que a menopausa afeta o cérebro

Na menopausa, a produção de estrogênio cai drasticamente. Além de regular o ciclo reprodutivo, esse hormônio tem papel importante no sistema nervoso: participa da formação de sinapses, do fluxo sanguíneo cerebral e da eliminação de substâncias tóxicas, entre elas a proteína beta-amiloide, marca registrada do Alzheimer.

Com a queda hormonal, essas funções ficam prejudicadas. Estudos de imagem mostram que o cérebro de mulheres na pós-menopausa apresenta alterações no metabolismo da glicose, uma espécie de “jejum energético” que pode favorecer o surgimento de doenças neurodegenerativas.

Um tratamento com histórico de controvérsia

A terapia de reposição hormonal já foi um dos tratamentos mais prescritos do mundo. No final dos anos 1990, um grande estudo clínico associou seu uso a um aumento no risco de câncer de mama, infarto e AVC, e as prescrições caíram drasticamente. Anos depois, revisões mostraram que os riscos dependem fortemente da idade da paciente, do tempo de uso, do tipo do hormônio e da forma de administração.

Para mulheres que começam a terapia perto do início da menopausa, os benefícios podem superar os riscos. Em contrapartida, iniciar o tratamento muitos anos depois do fim da menstruação parece trazer mais malefícios. A pesquisa sobre Alzheimer reforça a importância de considerar o momento certo de intervenção.

O que muda na prática

Por enquanto, a descoberta não muda protocolos de forma imediata. A decisão de iniciar a TRH continua sendo individualizada e deve levar em conta os sintomas da menopausa, o histórico familiar e pessoal de câncer, o perfil cardiovascular e a preferência da paciente.

O novo dado sobre Alzheimer pode, no entanto, entrar na balança como um benefício potencial. Mulheres com queixas de ondas de calor, insônia e alterações de humor que estão avaliando o uso de hormônios podem discutir com seus médicos se a proteção neurológica seria, no caso delas, um fator relevante.

Limites e cuidados necessários

Os pesquisadores são cautelosos em recomendar a TRH apenas para prevenir Alzheimer. Os riscos associados ao tratamento — principalmente trombose venosa e câncer de mama — não podem ser ignorados. A terapia com estrogênio isolado, por exemplo, tem perfil de risco diferente da combinação com progesterona, exigida em mulheres com útero.

Além disso, os estudos observacionais ainda precisam ser confirmados por ensaios clínicos desenhados especificamente para avaliar desfechos cognitivos. Até lá, o equilíbrio entre benefícios e riscos deve ser feito com base no quadro clínico de cada paciente.

O que vem a seguir

O próximo passo é entender melhor como o estrogênio protege o cérebro e se há subgrupos de mulheres que se beneficiam mais. Pesquisadores também querem saber qual a duração mínima da terapia para oferecer proteção neurológica sem elevar os riscos.

Essas respostas devem sair de estudos clínicos de longo prazo com acompanhamento cognitivo. Enquanto elas não chegam, a orientação é clara: tratar os sintomas da menopausa com segurança, sem abrir mão de um olhar atento para a saúde do cérebro.