A pesquisa oncológica acaba de ganhar um reforço importante com a liberação de um financiamento robusto para estudar um dos efeitos mais temidos do tratamento do câncer: o envelhecimento acelerado que tende a atingir os sobreviventes de transplante de medula óssea. Dr. Mina Sedrak, um dos principais nomes da oncologia, foi o agraciado com uma bolsa de pesquisa no valor de US$ 3,6 milhões para investigar e intervir sobre esse problema subdiagnosticado.
O projeto visa não apenas entender as bases biológicas que levam um organismo jovem a envelhecer precocemente, mas, principalmente, desenvolver estratégias para mensurar e promover a recuperação adequada dos pacientes, que costumam sair desses procedimentos com a saúde frágil, mesmo quando o câncer é eliminado com sucesso.
O paradoxo do tratamento intensivo
O transplante de medula óssea, ou transplante de células-tronco hematopoiéticas, é hoje o maior protocolo curativo para os cânceres do sangue, como as leucemias e os linfomas. Porém, a sua eficácia tem um preço: a quimioterapia de altas doses e a radiação, que eliminam a medula doente, também danificam o DNA das células saudáveis em todo o corpo. As consequências clínicas levam o paciente a ter os mesmos problemas que estamos habituados a associar à terceira idade mesmo em pessoas jovens: perda de massa muscular, problemas cardíacos, fadiga crônica e perda da função dos órgãos.
Na prática, um indivíduo de 30 anos que se trata de uma leucemia pode sair do tratamento com o coração de um idoso de 70 ou a função pulmonar gravemente comprometida. Isso coloca os sobreviventes em uma posição paradoxal: eles se curam da doença original, mas se tornam portadores de uma infinidade de condições crônicas, acarretando enorme custo ao sistema de saúde e, principalmente, perda de qualidade de vida para o paciente.
A nova abordagem em foco
O trabalho financiado tem a intenção de que esse cenário mude levando em conta um conceito chamado “fragilidade”. Em vez de focar apenas nas células cancerígenas, o olhar é voltado para o paciente como um todo, avaliando como o corpo deles se comporta nos anos seguintes à remissão. O acompanhamento dessas pessoas permitirá criar um índice de envelhecimento biológico, algo que não corresponde à idade cronológica da pessoa, mas sim ao estado em que as suas células estão.
Esse tipo de avaliação permitirá, no futuro, que médicos identifiquem quais pessoas estão em maior risco de desenvolver comorbidades após o transplante, abrindo caminho para intervenções que atrasem o processo de envelhecimento. A esperança é substituir o diagnóstico de simples sobrevivência pelo de bem-estar duradouro, com foco em reabilitação e na manutenção da funcionalidade.
Reabilitação personalizada
A grande inovação desta linha de estudo é antever um futuro em que o acompanhamento do sobrevivente não se encerre na quimioterapia. A proposta é ir além daquela cartilha genérica de “beba água e descanse”. A ideia é desenvolver, com base em biomarcadores genéticos, um plano de exercícios físicos personalizados, com recomendações de nutrição e de medicamentos de suporte para reduzir a toxicidade do tratamento. A premissa é que, ao entender o processo biológico, é possível atrasá-lo ou até revertê-lo.
Os primeiros anos de pesquisa vão se concentrar em decifrar os mecanismos funcionais e metabólicos do corpo. Os resultados, contudo, trazem uma mensagem de esperança a um dos profissionais mais temidos da medicina: o transplante de medula deixa de ser sinônimo de salvar uma vida para depois perder a qualidade dela.
