O mercado financeiro reagiu com euforia, mas o que está em jogo é um avanço que promete mudar a cara da oncologia. A farmacêutica Moderna, que ficou mundialmente conhecida pelas vacinas contra a covid-19, anunciou resultados animadores de sua nova terapia personalizada contra o câncer, chamada de “imunoterapia por mRNA”. As ações da companhia registraram alta de dois dígitos na bolsa de Nova York, impulsionadas pelo fato de a droga ter atingido os objetivos em um estudo de fase clínica.
Trata-se de uma notícia que interessa não apenas aos investidores, mas, acima de tudo, a milhões de pessoas que aguardam ansiosas por novas armas contra as metástases. A terapia, que vem sendo tratada como um dos avanços médicos mais promissores da década, mostrou-se capaz de treinar o próprio sistema de defesa do corpo para atacar o tumor de forma altamente personalizada.
Célula a célula: como age o novo tratamento
Diferentemente das quimioterapias tradicionais, que agem indistintamente sobre as células em divisão, a nova alternativa utiliza a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) de forma semelhante à das vacinas contra a covid-19, responsáveis por instruir as células do corpo a produzir uma proteína. No caso do câncer, a plataforma é adaptada para ensinar as células imunes a reconhecer e destruir as células cancerígenas.
O tratamento é totalmente individualizado. Isso porque os médicos colhem uma amostra do tumor do paciente e fazem o sequenciamento do DNA, identificando as chamadas mutações. No laboratório, induz-se o sistema imunológico a atacar essas mutações específicas do tumor. É um processo considerado uma “medicina de precisão de precisão”, que leva em consideração as características únicas de cada paciente e da doença.
O passo adiante: o que funcionou
O resultado de fase III, que apontou uma melhora significativa na chamada “sobrevida livre de progressão” em um dos tipos mais frequentes de tumores, pegou as ruas de Wall Street de surpresa. No entanto, um dos pontos mais fortes da pesquisa é a manutenção do perfil de segurança. Diferente dos tratamentos mais frequentes, os efeitos colaterais do sistema imunológico, como a maior propensão a infecções, foram menores quando comparados aos tratamentos de suporte.
Ainda assim, especialistas cautelosos lembram que o anúncio oficial, sem a publicação dos dados em uma revista médica revisada por pares, deve ser olhado com ressalvas. O otimismo é legítimo, mas a eficácia dessa modalidade precisa ser provada sob os olhos da comunidade científica global.
Quando a revolução chegará ao alcance
O timing para a chegada da nova modalidade às prateleiras ainda é incerto, embora haja otimismo na empresa. A aprovação em caráter de urgência, algo que ocorre nos casos de clara indicação de avanço terapêutico, pode acelerar o processo. A gigante farmacêutica já estuda a sua distribuição em outros países, incluindo o Brasil, que passaria a incorporá-los ao rol dos planos de saúde.
Mas não se engane: mesmo com a chegada, a logística é complexa. Diferente de remédios de prateleira, cada dose é fabricada de forma artesanal e personalizada, o que eleva os custos a patamares altíssimos. A questão que ficará para o futuro próximo é como conciliar a inovação com o acesso humanitário, para que o avanço científico de fato aconteça em todas as camadas da população.
