O tratamento do câncer avançado passou por uma revolução silenciosa nas últimas duas décadas. As opções tradicionais, como quimioterapia, ainda são amplamente usadas, mas agora dividem espaço com imunoterapia e terapias-alvo. Uma nova revisão sobre o uso dessas três modalidades em tumores avançados e refratários mostra que a combinação inteligente dessas estratégias está prolongando a sobrevida e melhorando a qualidade de vida de pacientes que antes tinham poucas alternativas.
Quimioterapia: o pilar que continua necessário
A quimioterapia mata células que se dividem rapidamente, incluindo as cancerosas, mas também afeta células saudáveis do organismo, causando efeitos colaterais conhecidos como queda de cabelo, náusea e imunossupressão. Apesar da chegada de tratamentos mais precisos, a quimioterapia ainda é indispensável em muitos casos — como tratamento neoadjuvante (antes da cirurgia), adjuvante (após a cirurgia) ou em combinação com novas drogas.
Um dos avanços recentes é a quimioterapia metronômica, que usa doses baixas e frequentes do medicamento, com objetivo de inibir a formação de novos vasos sanguíneos que alimentam o tumor (antiangiogênese) e de modular o sistema imunológico. Essa abordagem tem menor toxicidade e pode ser usada em pacientes frágeis.
Imunoterapia: treinando o corpo para atacar o câncer
A imunoterapia trata o câncer ativando o próprio sistema imunológico do paciente. Os inibidores de checkpoint (como pembrolizumabe e nivolumabe) bloqueiam proteínas que o tumor usa para se esconder das células de defesa. Em tumores com alta mutação, como melanoma e câncer de pulmão, a imunoterapia demonstrou resultados impressionantes, com alguns pacientes vivendo anos em remissão.
No entanto, a resposta é variável. Biomarcadores como a expressão de PD-L1 e a carga mutacional tumoral (TMB) ajudam a prever quem se beneficiará. A revisão destaca que os tumores refratários — aqueles que não respondem ao tratamento de primeira linha — podem responder a combinações de imunoterapia com quimioterapia ou outras drogas.
Terapia-alvo: atirando com precisão molecular
As terapias-alvo são medicamentos que atacam especificamente mutações genéticas que impulsionam o crescimento do tumor. O exemplo clássico é o Herceptin (trastuzumabe) para câncer de mama HER2 positivo. Na última década, o sequenciamento genético permitiu a identificação de novas alterações, como mutações em EGFR, ALK e BRAF, e o desenvolvimento de inibidores orais altamente eficazes.
Vantagens: menos efeitos colaterais em comparação à quimio, pois não afetam células normais. Desvantagem: o tumor pode desenvolver resistência, exigindo a troca da medicação ou a combinação com outros agentes. A revisão enfatiza a importância de repetir biópsias ou usar biópsia líquida (exame de sangue para detectar DNA tumoral) durante o curso do tratamento.
O que mudou na prática clínica
A grande revolução é o conceito de medicina personalizada. Antes, os pacientes com o mesmo tipo de tumor recebiam o mesmo protocolo. Hoje, cada tumor é analisado molecularmente para definir o tratamento mais adequado. Em tumores avançados e refratários, onde as opções são limitadas, essa abordagem permite que até 30% dos pacientes encontre uma terapia-alvo ou imunoterapia com resposta clínica.
Outra mudança é a sequência de tratamento. Não é mais uma regra fixa: quimio → imuno → alvo. Em alguns casos, a imunoterapia vem primeiro; em outros, a terapia-alvo pode ser usada como primeira linha quando a mutação é conhecida. A revisão destaca a importância de ensaios clínicos para avaliar combinações e novas drogas, como anticorpos conjugados a drogas (ADCs), que são “cavalos de troia” capazes de entregar quimioterapia diretamente na célula tumoral.
Desafios e perspectivas
Os principais desafios incluem o custo elevado das novas terapias, a toxicidade imunomediada (como pneumonite e colite) e a necessidade de infraestrutura hospitalar para administração e manejo de efeitos colaterais. No Brasil, o acesso a esses tratamentos pelo SUS é desigual, mas a incorporação de novas drogas tem ocorrido por meio da Conitec.
O futuro aponta para combinações triplas, terapia celular (CART-T) e uso de inteligência artificial para prever respostas. A revisão termina com uma mensagem para pacientes: mesmo quando o câncer é avançado ou refratário, há esperança — uma frase que se sustenta na melhora gradual das taxas de sobrevida.
O que vem a seguir
Nos próximos anos, espera-se que o uso de biomarcadores líquidos se torne rotina, permitindo monitorar a resposta em tempo real e detectar resistência antes da progressão radiológica. A integração entre oncologia e genética molecular será cada vez mais estreita, e os pacientes deverão ter acesso a testes genéticos que orientem a escolha terapêutica.
Para o público leigo, o recado é claro: o tratamento do câncer não é mais uma via de mão única. Quanto mais cedo o paciente tiver acesso a um centro de referência e a testes moleculares, maiores as chances de receber a terapia certa. E a esperança, amparada em dados, se torna uma aliada concreta.
