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O SUS está preparado para a próxima pandemia? Lições aprendidas e lacunas a preencher

A pergunta sobre a preparação do Sistema Único de Saúde (SUS) para uma nova pandemia ganhou relevância após a experiência com a Covid-19, que expôs tanto a força quanto as fragilidades da rede pública de saúde brasileira. O sistema que conseguiu realizar uma das maiores campanhas de vacinação do mundo também enfrentou colapso hospitalar em várias regiões. Agora, a discussão se concentra em um ponto: o que já foi melhorado e o que ainda precisa avançar para que a próxima emergência sanitária encontre uma estrutura mais resiliente?

O que o SUS já demonstrou em emergências

Durante a pandemia, o SUS operou em regime de guerra. Leitos de UTI foram ampliados, hospitais de campanha foram montados e equipes de saúde foram mobilizadas para as regiões mais afetadas. O programa nacional de imunização, considerado referência mundial, garantiu que mais de 80% da população recebesse o esquema vacinal completo em tempo recorde, mesmo diante de negacionismo científico e desinformação. Esse histórico mostra que a capacidade de resposta do SUS é real, especialmente quando há coordenação entre os três níveis de governo e participação ativa da comunidade científica.

No entanto, a estrutura que funcionou na crise também apresentou limites. A falta de estoque estratégico de insumos, a dependência de importações para a produção de vacinas e a desigualdade regional no acesso a UTIs são exemplos de vulnerabilidades que permanecem no sistema.

Gargalos crônicos que precisam de solução

A subfinanciamento do SUS é um problema estrutural. Estudos apontam que o investimento público em saúde no Brasil gira em torno de 9% a 10% do PIB, mas a maior parte é destinada a serviços de média e alta complexidade, enquanto a atenção primária — porta de entrada do sistema — recebe uma fatia menor. Na pandemia, a atenção primária foi essencial para o rastreamento de casos e a vacinação, mas muitas unidades estavam precarizadas, sem equipamentos de proteção individual e com equipes reduzidas.

Outro ponto é a fragmentação do sistema. A comunicação entre estados e municípios nem sempre é fluida, o que atrasa a distribuição de recursos e a implementação de medidas de contenção em nível local. A criação de um sistema nacional de vigilância genômica, como o que identificou rapidamente as variantes do novo coronavírus, foi um avanço, mas ainda depende de uma rede de laboratórios centralizados, que não alcança todas as regiões de forma igual.

Lições para o futuro próximo

Especialistas em saúde pública defendem que a preparação para novas pandemias não pode ser vista como um evento isolado, mas como parte da rotina do sistema. Isso inclui a manutenção de estoques reguladores de medicamentos, a formação contínua de profissionais de saúde em manejo de emergências e a criação de planos de contingência atualizados e testados regularmente.

Mais do que isso, é necessário fortalecer a atenção primária como base do sistema. Comunidades com médicos de família atuantes, agentes comunitários de saúde presentes e prontuários eletrônicos integrados conseguem responder mais rápido a surtos e evitar a sobrecarga dos hospitais. Investir em saneamento básico, moradia e segurança alimentar também é indiretamente uma forma de preparação para pandemias, pois reduz a vulnerabilidade das populações mais expostas.

O que vem a seguir

Não existe uma resposta definitiva sobre se o SUS está totalmente preparado para a próxima pandemia. O sistema tem potencial — provou isso —, mas está longe de ser ideal. A construção da resiliência exige decisões políticas contínuas, financiamento estável e um pacto social em defesa da saúde pública como direito universal.

A cada ano sem uma nova emergência sanitária, o risco de esquecimento cresce. Manter a pauta da preparação ativa, com investimentos em infraestrutura, pesquisa e vigilância, é o único caminho para que o Brasil não repita os erros do passado e esteja verdadeiramente pronto quando o próximo alerta acontecer.