Artigo

SUS adota protocolo rápido com trombolíticos para infarto e AVC

O Sistema Único de Saúde (SUS) anuncia a adoção de um novo protocolo rápido para administração de medicamentos trombolíticos em casos de infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico. A medida representa um avanço significativo na capacidade de resposta do sistema público de saúde brasileiro a duas das principais causas de morte e incapacidade no país: o infarto e o AVC. A lógica é simples, mas o impacto é enorme: quanto mais cedo o coágulo que obstrui uma artéria é dissolvido, maiores as chances de sobrevivência sem sequelas graves.

O que são os trombolíticos e como agem

Os trombolíticos são medicamentos capazes de dissolver coágulos sanguíneos que bloqueiam o fluxo de sangue em artérias vitais. No infarto, o coágulo interrompe a irrigação do músculo cardíaco; no AVC isquêmico — o tipo mais comum de derrame —, o bloqueio ocorre em uma artéria cerebral. Em ambos os casos, o tempo é tecido: a cada minuto sem oxigênio, células do coração ou do cérebro morrem de forma irreversível.

O novo protocolo estabelece critérios claros para a identificação rápida dos pacientes elegíveis, incluindo a realização de exames de imagem (como tomografia computadorizada no caso do AVC) e a avaliação do tempo desde o início dos sintomas. A janela terapêutica ideal para o uso de trombolíticos no AVC é de até 4,5 horas; no infarto, o ideal é administrar o medicamento nas primeiras horas, preferencialmente dentro de 2 a 3 horas do início da dor no peito.

Por que a rapidez é crucial: a corrida contra o relógio

Estima-se que, a cada minuto de atraso no tratamento do AVC isquêmico, cerca de 1,9 milhão de neurônios sejam perdidos. No infarto, a cada 30 minutos sem reperfusão, o risco de morte aumenta em aproximadamente 7,5%. Com o protocolo rápido, o SUS busca reduzir o tempo entre a chegada do paciente ao pronto-socorro e a administração do trombolítico — o chamado “tempo porta-agulha”.

Para isso, serão treinadas equipes de emergência em hospitais de todo o país, com ênfase em unidades que já atendem grande volume de urgências. A padronização do processo inclui desde a triagem inicial com sinais de alerta (como fraqueza súbita de um lado do corpo ou fala enrolada no AVC, e dor no peito com irradiação no infarto) até a liberação rápida do medicamento pela farmácia hospitalar.

Impacto para o paciente brasileiro

A adoção do protocolo pelo SUS tem potencial de beneficiar milhares de pessoas todos os anos. No Brasil, o AVC é a principal causa de morte e incapacidade, com cerca de 400 mil novos casos por ano. O infarto, por sua vez, é responsável por aproximadamente 100 mil mortes anuais. Muitos desses óbitos e sequelas poderiam ser evitados com atendimento mais ágil.

Até então, o uso de trombolíticos no SUS era limitado por falta de padronização, tempo excessivo de espera por exames e dificuldades logísticas. Com o novo protocolo, espera-se que mais pacientes dentro da janela terapêutica recebam o tratamento, reduzindo a mortalidade e a taxa de incapacidades permanentes, como paralisias e perda de fala no caso do AVC, ou insuficiência cardíaca no infarto.

Desafios e cuidados necessários

A aplicação de trombolíticos não é isenta de riscos. O principal efeito colateral é o sangramento, especialmente intracraniano, que pode ser fatal. Por isso, o protocolo exige uma avaliação rigorosa dos critérios de inclusão e exclusão: pacientes com história recente de cirurgia, sangramento ativo ou pressão arterial muito elevada, por exemplo, podem não ser candidatos ideais.

Além disso, o sucesso do protocolo depende do treinamento contínuo das equipes e da infraestrutura dos hospitais. É essencial que haja disponibilidade dos medicamentos, realização de exames de imagem em tempo hábil e leitos de terapia intensiva para o acompanhamento pós-tratamento. O SUS planeja um cronograma de implementação gradual, começando pelos grandes centros urbanos e expandindo para regiões mais remotas.

Um passo adiante na saúde pública

A decisão de adotar um protocolo rápido com trombolíticos coloca o Brasil em linha com as melhores práticas internacionais de emergência cardiovascular e neurológica. Mais do que uma medida técnica, trata-se de uma mudança de cultura no atendimento de urgência: o reconhecimento de que o tempo é o recurso mais valioso. Para o paciente que sente os primeiros sintomas de um infarto ou AVC, saber que o SUS está preparado para agir rapidamente pode fazer toda a diferença entre a vida com qualidade e a morte prematura. A partir de agora, a palavra de ordem é urgência, e cada minuto conta.