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Remédio contra câncer elimina células do HIV em macacos, aponta estudo

Pesquisadores da Universidade Emory, nos Estados Unidos, apresentaram a primeira prova de conceito em primatas não humanos de que um medicamento já aprovado para tratar câncer é capaz de eliminar células infectadas pelo HIV. O remédio, chamado venetoclax, atua bloqueando a proteína BCL-2, responsável por regular se uma célula vive ou morre — e que também favorece a sobrevivência tanto de células cancerígenas quanto das que abrigam o vírus HIV. O estudo foi publicado na revista científica Nature Microbiology e já motivou o início de dois ensaios clínicos em pessoas vivendo com HIV.

Por que eliminar o reservatório viral é o maior desafio da cura

O tratamento antirretroviral (TARV) consegue manter o HIV sob controle, mas não elimina as células que guardam o vírus de forma latente — o chamado reservatório viral. Se a medicação é interrompida, o vírus volta a se multiplicar. Segundo Mirko Paiardini, chefe da Divisão de Microbiologia e Imunologia do Centro Nacional de Pesquisa Biomédica da Emory (ENBRC) e autor sênior do estudo, eliminar esse reservatório é uma prioridade na busca pela cura do HIV, mas nenhuma estratégia terapêutica havia conseguido isso até agora.

Paiardini também é pesquisador principal do ERASE HIV, um colaboratório de pesquisa sobre a cura do HIV financiado pelo NIH (Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos), dedicado a caracterizar as funções do sistema imunológico que sustentam a infecção persistente pelo HIV e a desenvolver terapias imunológicas para eliminar ou controlar o vírus sem depender do tratamento antirretroviral contínuo.

Como o venetoclax age sobre as células infectadas

O venetoclax já é usado clinicamente no tratamento de cânceres como leucemias. Seu mecanismo consiste em bloquear a proteína BCL-2, que impede a morte programada das células (apoptose). Células cancerígenas usam essa proteína para escapar da morte — e o estudo mostrou que células infectadas pelo HIV fazem o mesmo, o que as torna um alvo em potencial para o mesmo tipo de medicamento.

Segundo Tomas Raul Wiche Salinas, pesquisador do ENBRC e primeiro autor do estudo, era preciso encontrar formas de eliminar as células infectadas, impedir que elas se tornem parte do reservatório de longa duração que persiste durante o tratamento, e evitar que o vírus volte a se multiplicar caso o tratamento seja interrompido.

O experimento com macacos rhesus

A equipe conduziu o estudo com macacos rhesus infectados pelo vírus da imunodeficiência símia (SIV, o equivalente ao HIV em primatas). Segundo Paiardini, os animais foram essenciais para a pesquisa porque são o único modelo pré-clínico que reproduz de forma completa as respostas imunológicas humanas e que abriga células latentemente infectadas que persistem durante o tratamento antirretroviral de longo prazo.

Quatorze dias após a infecção, os animais receberam apenas o tratamento antirretroviral ou a combinação de antirretroviral com venetoclax. Os pesquisadores administraram o venetoclax por apenas 10 dias nesta fase de prova de conceito.

Os resultados observados

De acordo com Wiche Salinas, a combinação de medicamentos reduziu o número de células T CD4+ infectadas pelo SIV de forma mais rápida do que o tratamento antirretroviral isolado. Mais importante: o nível de células infectadas permaneceu mais baixo nos animais tratados com venetoclax por meses após a interrupção do medicamento, mesmo com a continuidade do tratamento antirretroviral.

Com base nesses resultados, o laboratório de Paiardini agora avalia a eficácia de um tratamento com venetoclax por um período mais longo, além de investigar quais mecanismos celulares permitem que algumas células infectadas sobrevivam mesmo com o bloqueio da BCL-2.

Próximos passos: dos macacos para os humanos

Enquanto a equipe da Emory continua as investigações em laboratório, dois ensaios clínicos já estão em andamento para testar o venetoclax em pessoas vivendo com HIV. Paiardini destaca que, no estudo de prova de conceito, o venetoclax foi administrado aos macacos por apenas 10 dias, e que os resultados encorajadores levam a equipe a acreditar que tratamentos mais longos terão um impacto ainda maior na eliminação do reservatório viral.

O fato de o venetoclax já ser um medicamento aprovado e de uso clínico consolidado no tratamento de cânceres é uma vantagem importante: isso pode acelerar a transição de descobertas de laboratório para tratamentos disponíveis, já que a segurança do composto em humanos já é conhecida de seu uso em oncologia.