Um levantamento detalhado do Estudo Global de Doenças, analisado por pesquisadores brasileiros, revelou um retrato alarmante da saúde mental infantil no país: os transtornos de ansiedade lideram o ranking de causas de incapacidade entre crianças de 5 a 9 anos. O dado inédito por faixa etária expõe a urgência de políticas específicas para a infância, além de mostrar que o suicídio já é a terceira causa de morte prematura entre adolescentes a partir dos 15 anos.
O que mostram os números
Na comparação com as mais de 300 condições de saúde monitoradas pelo GBD, a ansiedade aparece em primeiro lugar como causa de incapacidade em todas as faixas etárias. No grupo de 5 a 9 anos, mais de 10% das crianças brasileiras preenchem critérios para pelo menos um transtorno mental. A partir dos 15 anos, ansiedade e depressão ocupam o primeiro e o segundo lugares do ranking geral, à frente de qualquer doença física, com impacto maior entre meninas e mulheres.
O estudo também revela um crescimento expressivo nas internações por transtornos mentais entre crianças e adolescentes no estado de São Paulo entre 2020 e 2025: a faixa de 5 a 9 anos registrou alta de 98,3%, o maior percentual entre todas as idades.
Ansiedade varia conforme a fase da vida
Os pesquisadores explicam que a ansiedade é um “guarda-chuva” que muda de forma ao longo do desenvolvimento. Na infância predominam quadros de ansiedade de separação; na adolescência, o transtorno de ansiedade social; e mais adiante, ansiedade generalizada ou pânico. No Brasil, os dados são ainda mais elevados do que a média mundial, principalmente puxados pelas mulheres na faixa de 20 a 29 anos.
Essa variação indica que estratégias de prevenção e tratamento precisam ser adaptadas a cada momento do desenvolvimento, e não apenas treinar a população para “relaxar” ou “controlar o estresse”. É uma questão de saúde pública que exige intervenção precoce e acesso a serviços qualificados.
O drama do suicídio entre jovens
O levantamento registra 5.402 mortes anuais por suicídio entre 10 e 29 anos, sendo 77% entre rapazes. A taxa por 100 mil habitantes sobe de 1,24 entre 10 e 14 anos para 13,43 entre 25 e 29 anos. A partir dos 15 anos, o suicídio se torna a terceira causa de morte prematura entre todas as causas monitoradas no país.
A diferença por sexo é marcante e aponta para a necessidade de políticas de prevenção específicas para jovens do sexo masculino, historicamente menos alcançados pelos serviços de saúde mental. A demora na busca por ajuda é um problema estrutural: muitas vezes o quadro precisa se agravar até chegar a uma emergência, como uma tentativa de suicídio, para que a pessoa receba encaminhamento adequado.
Um desafio também na produção de conhecimento
Os pesquisadores destacam que, para estimar a situação de toda a população de 5 a 29 anos, o GBD contou com apenas 66 fontes de dados nacionais, concentradas quase inteiramente em São Paulo e Rio Grande do Sul, com praticamente nada vindo das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Essa lacuna impede que políticas sejam desenhadas com precisão para a realidade de cada estado.
A falta de dados históricos e regionais é um sintoma do mesmo descaso com a saúde mental de crianças e adolescentes. A urgência, segundo os autores, é incorporar a saúde mental às políticas voltadas à infância e à juventude, de forma integrada à educação, assistência social e atenção básica, antes que os casos se tornem crises agudas.
O que vem a seguir
Os especialistas defendem que o poder público precisa agir em duas frentes: ampliar a rede de atendimento psicossocial para crianças e adolescentes, com profissionais capacitados para identificar sinais precoces, e investir em pesquisas que cubram as lacunas regionais. O custo social e econômico da ansiedade e da depressão não tratadas é imenso — e começa cada vez mais cedo na vida.
A boa notícia é que transtornos internalizantes como ansiedade e depressão têm tratamento eficaz quando diagnosticados precocemente. O desafio é transformar a consciência do problema em ação concreta no SUS, nas escolas e nas famílias.
