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Canetas de semaglutida se aproximam do SUS após queda de preço

A redução do preço da semaglutida e novas avaliações no Ministério da Saúde reacenderam a discussão sobre a oferta de medicamentos contra a obesidade pelo Sistema Único de Saúde. As chamadas canetas emagrecedoras ainda não fazem parte da rede pública, mas um projeto-piloto com 250 pacientes e um novo pedido de incorporação colocam o tema em uma etapa mais avançada. A decisão, porém, dependerá da comprovação de benefício clínico, custo sustentável e definição de quais grupos terão prioridade.

Obesidade avançou no Brasil

O debate ocorre em meio ao crescimento expressivo da obesidade entre adultos brasileiros. Dados do Vigitel indicam que 25,7% dos adultos conviviam com obesidade em 2024. Em 2006, eram 11,8%. A comparação mostra que a doença se tornou muito mais frequente em menos de duas décadas e passou a pressionar os serviços de saúde por causa da associação com diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e outras complicações.

Apesar desse cenário, o SUS dispõe de poucas alternativas medicamentosas específicas para o controle da obesidade. A cirurgia bariátrica é a principal opção terapêutica de maior intensidade, mas a espera pode durar anos em diferentes regiões. O tratamento medicamentoso poderia atender parte dos pacientes que aguardam o procedimento ou que não têm indicação imediata para cirurgia.

Como a semaglutida age no organismo

A semaglutida imita a ação de um hormônio intestinal relacionado à saciedade e ao controle da glicose. O medicamento ajuda a reduzir o apetite, retarda o esvaziamento do estômago e melhora o controle metabólico. Por isso, o mesmo princípio ativo aparece em produtos destinados ao diabetes tipo 2 e em formulações voltadas ao tratamento da obesidade.

O uso, entretanto, não equivale a uma solução rápida ou isolada. A obesidade é uma condição crônica, e o tratamento precisa ser acompanhado ao longo do tempo. Orientação nutricional, atividade física e assistência multiprofissional continuam sendo componentes importantes, inclusive porque a resposta e a tolerância ao medicamento variam entre os pacientes.

Por que o preço mudou o debate

Pedidos anteriores para incluir semaglutida e liraglutida no SUS foram rejeitados diante de um impacto financeiro estimado em mais de R$ 8 bilhões. Desde então, o fim da patente da semaglutida permitiu a entrada de empresas brasileiras e aumentou a concorrência. O medicamento, que chegou a custar cerca de R$ 1,4 mil, passou a ser encontrado por aproximadamente R$ 330 em versões similares, segundo a avaliação apresentada no material.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária recebeu 18 pedidos de registro de produtos com semaglutida. Uma primeira versão brasileira chegou às farmácias em junho, e outras cinco tiveram o registro aprovado. A existência de mais fabricantes pode reduzir o custo, mas o preço final e a disponibilidade efetiva ainda dependem da comercialização e das condições de compra.

Quem pode ser priorizado na rede pública

O novo pedido de incorporação apresentado à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS propõe restringir inicialmente o tratamento a pessoas com mais de 45 anos, obesidade grave, doença cardiovascular estabelecida e sem diagnóstico de diabetes. A proposta considera um grupo de maior risco, no qual uma redução de eventos cardiovasculares pode produzir impacto clínico relevante.

Estudos citados na proposta apontam redução de 20% no risco combinado de morte cardiovascular, infarto e acidente vascular cerebral em pessoas com sobrepeso ou obesidade que já apresentam doença cardiovascular. Esse resultado não significa que todos os usuários terão o mesmo benefício, nem que o remédio substitui medidas de prevenção ou outros tratamentos cardiovasculares.

O que o projeto-piloto deve esclarecer

O projeto Real-Bari acompanha 250 pessoas com obesidade grave que aguardam cirurgia bariátrica no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Os participantes recebem semaglutida gratuitamente, e o acompanhamento pretende avaliar tanto os resultados clínicos quanto os custos dentro da realidade do SUS.

A análise da proposta pode levar até 180 dias. Mesmo que o parecer seja favorável, ainda será necessário realizar uma licitação antes da oferta pública. A tendência mais provável, segundo a avaliação de especialistas apresentada, é que um eventual acesso inicial seja direcionado a pacientes com maior risco clínico, em vez de abranger todas as pessoas com obesidade.

Por que as canetas não resolvem sozinhas

A semaglutida pode causar efeitos adversos e exige acompanhamento profissional. Além disso, a resposta depende de dose, adesão, condições de saúde e continuidade do cuidado. O medicamento também não elimina as causas sociais, ambientais e comportamentais que contribuem para o avanço da obesidade.

A possível incorporação ao SUS representaria uma mudança importante na abordagem da doença, mas precisará vir acompanhada de critérios claros, monitoramento e rede de apoio. O principal desafio será transformar a queda de preço em acesso seguro e sustentável, sem reduzir o tratamento da obesidade a uma simples prescrição de medicamento.