Artigo

Como desigualdade social e racial limita atividade física no Brasil

Uma pesquisa sobre a prática de atividade física no Brasil mostrou que a desigualdade social e racial continua sendo uma barreira decisiva para o exercício. As menores taxas de atividade física estão entre os grupos mais pobres e entre a população negra, justamente quem mais sofre com doenças associadas ao sedentarismo. O problema vai muito além da vontade individual: é uma questão de estrutura urbana, renda, segurança e acesso a serviços.

O que a pesquisa mostrou

Os dados indicam que pessoas negras e de baixa renda são as que menos conseguem manter uma rotina regular de exercícios. A ausência de espaços públicos adequados, a longa jornada de trabalho e a falta de dinheiro para academias ou equipamentos estão entre os principais fatores apontados.

A pesquisa também evidencia que a inatividade física não é distribuída de forma igual entre a população. Quem acumula desvantagens sociais tende a ter menos tempo, menos segurança e menos oportunidades de se movimentar, o que aprofunda as desigualdades em saúde.

Por que isso é um problema de saúde pública

A atividade física regular protege contra doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão, depressão e ansiedade. Ela também melhora o sono, a disposição e a qualidade de vida. Quando falta justamente a quem mais precisa, o resultado é o aumento das internações, dos gastos com medicamentos e das mortes prematuras.

A desigualdade no acesso ao exercício ajuda a explicar por que populações mais pobres e negras têm maiores taxas de diversas doenças crônicas. Não se trata de genética ou de escolha individual, mas de um conjunto de condições materiais que empurram esses grupos para um estado de saúde pior.

O ambiente e o tempo como barreiras

Morar em regiões sem calçadas adequadas, ciclovias, parques ou iluminação pública reduz drasticamente as oportunidades de se movimentar. Em muitas periferias, a violência urbana faz com que caminhar ou correr na rua seja um risco. Mesmo quando existe um espaço público, a distância e a falta de transporte podem inviabilizar o acesso.

Há também a questão do tempo. Trabalhadores de baixa renda costumam ter jornadas exaustivas e pouco controle sobre a própria rotina. Pessoas que cuidam sozinhas de filhos ou familiares acumulam tarefas e não encontram estrutura para o autocuidado. Nesse cenário, a atividade física deixa de ser uma escolha e se torna um privilégio.

O que pode ser feito

Uma das saídas é investir em programas gratuitos e comunitários, com profissionais de educação física, em escolas, praças e unidades de saúde. Outra é planejar as cidades para que o deslocamento a pé ou de bicicleta seja seguro e agradável. Iluminação, manutenção de espaços públicos, calçadas largas e redução da velocidade no trânsito têm impacto direto na prática de exercícios.

No campo da saúde, o Sistema Único de Saúde pode integrar a atividade física ao cuidado de pessoas diagnosticadas com hipertensão, diabetes e obesidade. Para isso, é preciso ampliar o número de polos do programa de atividade física na atenção básica e capacitar equipes. Políticas de combate ao racismo e à pobreza também são, indiretamente, políticas de promoção de saúde.

O que vem a seguir

A divulgação dos dados deve servir como um chamado para gestores públicos e para a sociedade. É essencial monitorar a atividade física por recorte de raça, renda e território, para que as políticas cheguem a quem mais precisa. Sem esse olhar, as ações podem parecer neutras, mas acabam beneficiando apenas quem já tem condições de se exercitar.

Um Brasil mais ativo só será possível quando o direito de se movimentar for garantido a todas as pessoas. Isso exige mudanças no ambiente construído, nas relações de trabalho e na forma como o sistema de saúde enxerga a atividade física. A prática de exercícios não pode ser tratada como responsabilidade exclusiva do indivíduo.