Dor no peito, alterações no eletrocardiograma e marcadores cardíacos elevados podem ocorrer tanto na síndrome de Takotsubo — frequentemente chamada de “síndrome do coração partido” — quanto em uma síndrome coronariana aguda, que inclui o infarto. Um novo estudo propôs o BioTAK, um escore com sexo e quatro marcadores do sangue para apoiar essa distinção antes do cateterismo. O resultado é promissor, mas não muda a regra de segurança: sintomas compatíveis com emergência cardíaca exigem atendimento imediato.
Por que essa diferença é difícil
A síndrome de Takotsubo causa disfunção aguda e geralmente transitória do ventrículo esquerdo. Ela pode surgir após estresse emocional ou físico e imitar de perto uma síndrome coronariana aguda. Como errar ou atrasar o diagnóstico de infarto pode ser perigoso, a investigação costuma combinar história clínica, eletrocardiogramas, imagem cardíaca e, em muitos casos, angiografia para excluir uma obstrução coronariana responsável.
Por isso, um exame de sangue com boa capacidade de separar os dois cenários seria útil apenas como apoio à triagem clínica — não como autorização para adiar o protocolo de urgência.
Como o BioTAK foi construído
O trabalho reuniu 3.615 pacientes com síndrome coronariana aguda ou Takotsubo de registros prospectivos. O escore foi desenvolvido em 1.823 pacientes, dos quais 69 tinham Takotsubo, e testado em uma coorte externa de 1.792 pacientes, com 77 casos de Takotsubo.
O modelo final usou cinco itens: sexo e quatro medidas sanguíneas. São elas NT-proBNP, relacionado ao estresse do músculo cardíaco; PAM, ligado a regulação vascular e de peptídeos; sLOX-1, associado à instabilidade de placas ateroscleróticas; e colesterol LDL. A proposta é combinar padrões biológicos que tendem a diferir entre Takotsubo e eventos coronarianos por obstrução de artérias.
Qual foi o desempenho
Na coorte de desenvolvimento, o escore apresentou área sob a curva de 0,97; na validação externa, 0,93. Com limites definidos antes da análise, 89,2% dos participantes da coorte de desenvolvimento foram colocados em faixa de probabilidade baixa ou alta para Takotsubo, restando uma minoria na faixa intermediária. Esse é o sentido correto de “quase 90%”: o teste estratificou a probabilidade na maior parte dos casos; ele não acertou de forma definitiva 90% dos diagnósticos sem contexto clínico.
Na faixa de alta probabilidade, a especificidade foi alta, mas o valor preditivo positivo depende da frequência da doença no serviço onde o teste é usado. Já abaixo do limite de baixa probabilidade, o valor preditivo negativo foi muito alto na coorte estudada. Esses números são úteis para pesquisadores e cardiologistas, mas não devem ser convertidos em uma decisão individual fora do fluxo de emergência.
Por que ainda não é um exame de rotina
Apesar de haver validação externa, as coortes vieram de infraestruturas de registro relacionadas; os próprios autores pedem validação em cenários adicionais. Além disso, dois dos marcadores, sLOX-1 e PAM, ainda não fazem parte dos exames disponíveis na rotina hospitalar e os testes usados no estudo levam hoje cerca de três a cinco horas. O impacto do BioTAK sobre desfechos clínicos, uso de cateterismo e segurança do paciente ainda precisa ser demonstrado em estudos de implementação.
Em pacientes com elevação do segmento ST ou sinais clínicos de alto risco, o cateterismo urgente pode continuar indicado mesmo quando a hipótese de Takotsubo é forte. A melhor leitura, portanto, é de uma ferramenta de apoio que pode tornar a triagem futura mais objetiva em casos selecionados — não de uma alternativa à avaliação cardíaca de urgência.
Fonte
Wenzl FA, et al. Takotsubo syndrome diagnosis: the biomarker-based BioTAK score. European Heart Journal. Publicado em 31 de agosto de 2026.
Leitura crítica associada: Even the most sophisticated cannot escape from the Reverend Bayes. European Heart Journal.
