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Vício em jogos: como o SUS pode lutar contra as apostas

A discussão sobre a regulamentação das apostas esportivas e jogos online não é mais uma pauta exclusiva do alto escalão político. Durante uma conferência em saúde pública, o vício em apostas passou a ser encarado oficialmente como um problema de saúde coletiva, mobilizando gestores, pesquisadores e especialistas sobre o impacto devastador que essas plataformas geram na população de baixa renda. A pauta trouxe à tona a necessidade urgente de incluir o transtorno do jogo nas principais políticas públicas de assistência social e atenção primária.

O alerta, cada vez mais recorrente, se baseia em dados de outros países, onde o incentivo ao jogo é décadas mais antigo, e no cenário local, que assiste a uma explosão no número de usuários e no endividamento causado por essas plataformas.

As bases do problema no consumidor

O funcionamento dos jogos é conhecido por explorar o sistema de recompensa do cérebro. A cada vitória, há uma liberação de dopamina, substância do prazer, que leva à repetição da aposta, mesmo após perder grandes somas. Em vez de se afastarem, os apostadores buscam novas formas de apostar para ao menos recuperar o prejuízo. Esse movimento está na gênese do vício e atinge, principalmente, as faixas etárias mais jovens e em situação de vulnerabilidade.

A indústria se estruturou para que o apostador não perceba que está conversando com uma máquina: as plataformas são histórias de vida que geram uma promessa de enriquecimento rápido e viram fonte de adrenalina. No âmbito psiquiátrico, o vício em apostas passou a ser classificado como transtorno do controle de impulsos, reconhecidamente suscetível a tratamento e que muitas vezes caminha lado a lado com a ansiedade e a depressão.

O vazio de políticas contra o endividamento

Uma das lacunas observadas é a falta de preparo dos profissionais de saúde e da rede de atendimento para acolher esses usuários nos serviços de atenção psicossocial (CAPS). O acolhimento desse público é diferente do tratamento de abuso de álcool e drogas, e a rede precisa se adaptar para recebê-los. É preciso formação permanente de equipes para lidar com as novas dependências, o que se tornou uma pauta imediata com o baixo custo do tempo de tela e a facilidade de acesso às apostas pelo celular.

Além disso, a falta de regras de proteção ao consumidor, como limites claros de depósito e opção de autoexclusão de longo prazo, coloca toda a responsabilidade sobre o jogador. Políticas de jogo problemático, como as da Inglaterra, onde as operadoras podem ser multadas se deixarem de ofertar mecanismos de proteção ao apostador, ainda são uma exceção por aqui.

O custo social para o orçamento doméstico

O endividamento das famílias é o primeiro indicador visível do estrago causado pela indústria do jogo online. O recurso que seria destinado ao crédito da casa, alimentação e escola, migra para as plataformas, gerando um efeito em cadeia de inadimplência e perda de bem-estar social. No longo prazo, quem saca vantagem é a casa, transformando o cotidiano das famiílias mais vulneráveis em uma verdadeira armadilha para elas.

No âmbito do SUS, porém, o custo mais alto é o tratamento que poderia ser evitado, mas que se torna contínuo. Ao passo que o orçamento familiar se aperta, os serviços de proteção ao consumidor acumulam queixas contra esses apps e a tendência de agravamento de quadros de ansiedade e insônia se destaca nos consultórios médicos.

Futuro com mais acolhimento e regulação

Entender o jogo como um comportamento dependente e combater o seu estímulo é mais eficaz do que proibi-lo sem debater o tema a fundo. A direção do SUS aponta para a ampliação dos mecanismos de canal de denúncias e proibição de publicidade abusiva, como já ocorre com o tabaco e as bebidas alcoólicas. A tendência é que medidas sejam pensadas em conjunto com os Conselhos de Psicologia e Medicina a fim de prestar atendimento humanizado nos locais de moradia dos pacientes, pois o tratamento é simbólico e envolve reconstruir vínculos que o mundo digital destruiu.

Um campo de esperança

Ainda que desafiador, o vício em apostas não é uma sentença. Assim como em outras áreas da saúde comportamental, a recuperação é possível, mas depende de ajuda especializada para a reconstrução do autocontrole. A mensagem que fica é a de que o SUS é a maior aposta no combate a essa que pode se tornar uma das piores epidemias do século, tirando proveito da maior fragilidade das pessoas: a esperança de ganhar de ganhar.